Quando ouves "cuidado íntimo", o que é que te vem à cabeça? Provavelmente um gel de lavagem, roupa interior de algodão e pouco mais.
A higiene importa, claro, mas reduzir o cuidado com a tua zona íntima a "estar limpa" é como dizer que cuidar da pele é só tomar banho.
Autocuidado íntimo é a forma como te relacionas com o teu corpo, com o teu prazer e com os sinais que ele te dá. Neste artigo falamos do que isso significa na prática, sem vergonha e sem tabus.
Higiene é só o começo
A vulva cuida bem de si própria. A vagina tem um equilíbrio natural e limpa-se sozinha, por isso não precisa de duches vaginais nem de perfumes.
Na realidade, a higiene íntima pede pouco:
- Água morna e, se quiseres, um gel suave e sem perfume, só na parte externa.
- Roupa interior respirável e trocada todos os dias.
- Urinar depois das relações sexuais.
Simples, certo? Agora vem a parte de que quase ninguém fala.
Conhecer o teu corpo
Não dá para cuidar bem do que não se conhece… Muitas de nós crescemos sem nunca olhar com atenção para a nossa própria vulva.
Pega num espelho e olha. Repara na forma, na cor, na textura. Não existe uma vulva "normal": existem milhões de vulvas diferentes, e a tua é uma delas.
Conhecer o teu corpo também é conhecer os teus ritmos. O corrimento, a lubrificação e o desejo mudam ao longo do ciclo, com a idade e com o que estás a viver. Quando sabes o que é habitual para ti, percebes mais depressa quando alguma coisa muda.
Prazer também é cuidado
O prazer não é um extra, nem uma recompensa para quando sobra tempo. Faz parte do teu bem-estar, tal como dormir bem ou mexer o corpo.
A masturbação é uma das formas mais simples de autocuidado íntimo. Ajuda-te a perceber o que gostas, a relaxar, a libertar tensão e a dormir melhor. E não precisa de parceiro, de ocasião especial nem de justificação.
Se nunca exploraste ou se queres sair da rotina, começa devagar:
- Reserva um momento só teu, sem pressa e sem interrupções.
- Explora com as mãos antes de pensar em brinquedos.
- Usa lubrificante, mesmo que aches que não precisas. O conforto conta.
- Se quiseres experimentar um brinquedo, começa por um vibrador externo e de intensidade ajustável.
Não há objetivo a cumprir. Se chegares ao orgasmo, ótimo. Se não, o momento continua a ser teu.
Escolher bem o que usas
Tudo o que toca na tua zona íntima merece atenção. É uma pele sensível, e o que lá pões faz diferença.
- Brinquedos: prefere silicone de grau médico ou materiais não porosos, como vidro ou aço. São mais fáceis de limpar e mais seguros.
- Lubrificantes: os de base aquosa servem para quase tudo, incluindo preservativos e brinquedos de silicone. Os de silicone duram mais, mas não devem ser usados com brinquedos de silicone.
- Limpeza: lava os brinquedos antes e depois de cada uso, com água morna e sabão neutro ou com um produto de limpeza próprio.
- Arrumação: guarda-os secos e separados, num saco ou caixa só para eles.
Cuidar de ti também é escolher produtos em que confias.
Ouvir os sinais e ir ao médico
Cuidar de ti é também não ignorar o que o corpo te diz. Vale a pena falar com um profissional de saúde se notares:
- Comichão, ardor ou dor que não passam.
- Mudanças no cheiro, na cor ou na quantidade de corrimento.
- Dor durante ou depois das relações sexuais.
- Sangramentos fora do período.
As consultas de rotina de ginecologia e os rastreios também fazem parte do autocuidado íntimo. E se alguma coisa te deixa desconfortável na consulta, pergunta. Não há perguntas desnecessárias sobre o teu corpo.
Cuidado emocional e limites
O autocuidado íntimo não fica só no corpo. Passa também pela forma como pensas e falas sobre a tua sexualidade.
- Larga a culpa. Desejo, curiosidade e prazer não são motivo de vergonha.
- Conhece os teus limites. Saber o que queres e o que não queres é cuidar de ti, sozinha ou com alguém.
- Comunica. Dizer a quem está contigo o que gostas, o que não gostas e o que queres experimentar torna tudo mais seguro e muito melhor.
- Respeita as tuas fases. Há alturas com mais desejo e outras com menos. As duas são normais.
Uma relação honesta contigo própria é a base de tudo o resto.
Esta semana, escolhe um gesto pequeno
Autocuidado íntimo não é uma rotina perfeita nem uma lista de produtos. É uma relação: com o teu corpo, com o teu prazer e contigo própria.
Pode ser um momento só teu, uma pergunta que andas a adiar, um olhar sem julgamento.
Reduzir o cuidado íntimo a “estar limpa” é como dizer que cuidar da pele é só tomar banho. Descobre o que é, na prática, o autocuidado íntimo, e acompanha a página Sem Vergonha ou o nosso Instagram para saberes a data da próxima live.